Breves reflexões sobre os caminhos da pesquisa

Ruben Araujo de Mattos

Neste pequeno texto apresento algumas reflexões sobre a prática da pesquisa. Não pretendemos fazer aqui considerações sobre o grande elenco de técnicas de investigação e de análise que podem ser e têm sido utilizados nos estudos sobre políticas de saúde. Há um grande número de manuais de metodologia que oferecem inventários e descrições destas diversas técnicas. Tais manuais podem ser muito úteis quando se busca conhecer melhor esta ou aquela técnica que cogitamos utilizar, mas nem sempre ajudam um pesquisador na hora em que se defronta com a escolha dos procedimentos metodológicos para sua pesquisa.

Alguém que adote uma concepção tradicional da ciência, diante da diversidade das técnicas, pode ser tentado a hierarquiza-las segundo sua capacidade de acessar o que de fato acontece. Por exemplo, alguém pode criticar o uso da entrevista, pois o entrevistado pode furtar-se a responder verdadeiramente, escondendo-se por trás de formas de racionalização, de tal modo que suas respostas salvaguardam o que ele (o entrevistado) julga ser conveniente. Assim, a entrevista não seria capaz de por si só garantir um conhecimento válido. O equívoco desta crítica é a imagem que alguma outra técnica poderia assegurar tal acesso à realidade.

No texto Ciência, metodologia e trabalho científico apresentamos uma crítica a esta visão tradicional da ciência. Na visão de ciência que sustentamos, não é possível avaliar a adequação de uma técnica de pesquisa ou de análise pensando na sua capacidade de acessar a realidade tal como ela é. Ou seja, nesta perspectiva não faz sentido escolher apenas analisar documentos ao invés de entrevistar sujeitos que participaram do processo político em questão sob a alegação de que a entrevista seria menos capaz de acessar a realidade do que a análise dos documentos (ou o inverso). Isto porque consideramos que esta ideia de correspondência à realidade deveria ser completamente abandonada. Ao invés dela, pensamos que para escolher uma técnica de pesquisa, devemos levar em conta a capacidade da mesma de contribuir para que alcancemos nossos propósitos de pesquisa. É a adequação aos nossos propósitos e não a suposta maior capacidade de desvendar a realidade que é importante no trabalho científico. Nem todas as técnicas permitem-nos responder nossas perguntas de pesquisa.

Ora, como os propósitos de uma pesquisa são construídos pelo pesquisador, a questão central no exame da qualidade de um trabalho científico diz respeito à adequação das escolhas metodológicas ao objeto da pesquisa. Este é um primeiro ponto que gostaria de ressaltar, para enfatizar a ideia de que talvez possamos aprimorar nossas habilidades de pesquisas acadêmicas analisando exemplos de escolhas metodológicas em estudos concretos do que percorrendo inventários das técnicas disponíveis.

Os caminhos percorridos pelos pesquisadores no processo que vai de seu difuso interesse por um tema até o desenho metodológico detalhado do estudo é profundamente subjetivo e variável. As histórias desses percursos em estudos concretos nem sempre coincide com os relatos da metodologia nos textos. Quando lemos um texto acadêmico pronto (um artigo científico, por exemplo) encontramos a descrição da metodologia, ou seja, dos procedimentos utilizados para produzir os argumentos naquele estudo. Mas geralmente não encontramos muitas pistas para compreender como os pesquisadores chegaram a delinear aquela metodologia. Ou seja, os relatos da metodologia não contam a história dos caminhos concretos percorridos pelos autores. Lendo os artigos, podemos ter a falsa impressão de que tudo se deu de uma forma muito clara, lógica e linear. Como vimos no texto Ciência, Metodologia e Trabalho Científico (neste material), pesquisadores sabem que nas práticas de pesquisa, frequentemente os carros vem na frente dos bois. Contudo, em algum momento antes de tornar público o produto da pesquisa, o investigador adota procedimentos para reposicionar os carros atrás dos bois, de modo a produzir um relato consistente dos processos que o levaram as conclusões que sustenta. A consistência aqui se refere à capacidade de convencer os pares. Estamos neste momento mais interessados em pensar e convidá-los a pensar mais na história das pesquisas, ou seja, nos caminhos concretos percorridos por nós na prática da pesquisa do que a análise dos potenciais e limites de cada uma das técnicas passíveis de utilização nas pesquisas sobre políticas de saúde. Daí a opção por trabalhar mais com exemplos do que propriamente com a descrição das diferentes técnicas.

Uma primeira observação sobre os caminhos da pesquisa é sobre o que chamamos construção do objeto. Não há regra nem forma geral do processo de construção do objeto. Muitos descrevem como recortes, como no conselho frequentemente ouvido nas discussões de projetos de trabalho “há que se recortar o objeto”. Mas esta expressão pode dar a impressão que o objeto existe na realidade, e nosso ato é o de recortá-lo. Prefiro pensar neste processo como o do artífice: há que se inventar um objeto acerca do qual fazemos indagações. De qualquer modo, a construção do objeto marca momentos distintos da pesquisa. Antes dela, estamos a nos aproximar do tema, movidos por algumas inquietações por vezes bastante difusas. Após a construção do objeto, passamos a ver com mais clareza o que pretendemos com aquela pesquisa, e somos capazes de formular com clareza as questões.

Devo ressaltar que, se é possível ressaltar diferenças nesses momentos, a construção do objeto nem sempre se faz em um momento único que marca de maneira inequívoca os caminhos da pesquisa. Ao contrário, em algum momento da caminhada, um pesquisador se vê com um conjunto bem delimitado de questões sobre seu objeto.

Tampouco podemos dizer que o uso de técnicas de pesquisa se restringe a segunda fase, após a construção do objeto. Muitas vezes nossa aproximação com o tema que nos instiga leva a adotar procedimentos típicos da pesquisa, embora o significado do uso possa ser bastante distinto do uso de procedimentos semelhantes na segunda fase. Por exemplo, suponhamos que alguém queira estudar a formulação da Política Nacional de Atenção Básica. Há aqui um enunciado do tema, mas não há pistas sobre o objeto. Suponhamos que este pesquisador não tenha participado deste processo de formulação. Possivelmente ele precisará se aproximar do tema. Se a revisão bibliográfica pode ajudar, ela pode ser insuficiente. O pesquisador pode, por exemplo, sentir a necessidade de conversar com algumas pessoas que participaram do processo que ele almeja estudar, para obter algumas informações básicas, bem como para ter acesso a alguns documentos de mais difícil acesso. Estas conversas não serão, contudo, guiadas pelas questões da pesquisa, pelo simples fato de que o pesquisador ainda não as tem claras. Tais conversas não deixam de ser entrevistas, mas serão completamente diferentes de entrevistas feitas com participantes do processo após o desenho do conjunto de questões da pesquisa. Analogamente, o investigador talvez precise proceder a uma primeira leitura dos documentos que apresentam a política, por exemplo. Mas esta leitura será distinta daquela que eventualmente fará posteriormente usando, quem sabe, a análise de conteúdo temática, ou a análise retórica para trabalhar sobre os mesmos documentos.

Este uso de procedimentos como a conversa com informantes chaves (nome pomposo para a primeira situação) ou a leitura atenta de documentos feitos antes da construção do objeto podem ser muito importantes, embora não sejam comumente computados nos relatos da metodologia. Geralmente eles se restringem aos procedimentos adotados após a construção dos objetos, pelo simples fato de que somente diante do objeto construído poderemos avaliar a adequação daqueles procedimentos.

Os caminhos da pesquisa também são bastante diferentes nas diversas formas de implicação do pesquisador no processo tomado para estudo. A visão de ciência que sustentamos parte da premissa que os estudos sobre políticas não são e não devem aspirar ser neutros. Ou seja, ao escolher um tema, já manifestamos nosso posicionamento.  Mas as implicações podem ser bastante distintas. O exemplo dado no parágrafo anterior imaginava um pesquisador que não participou da formulação da política que almeja estudar. Mas pode ser o caso de que o pesquisador tenha decidido estudar o tema exatamente por ter sido um protagonista naquele processo, que o deixou com algumas inquietações. Neste caso, o pesquisador já tem um conhecimento prévio sobre o processo. Talvez ele poderia mesmo ser um daqueles informantes chave do exemplo anterior, e certamente já teria lido muitas vezes os documentos mais fundamentais, talvez conhecendo alguns dos bastidores de sua construção.  Nesta situação, talvez a maior preocupação na escolha das técnicas seja a de assegurar que elas possam eventualmente contestar as visões a priori que este pesquisador tem sobre o processo em estudo.

Algumas vezes o objeto que se constrói se refere ao passado, ou seja, a processos políticos que já aconteceram. Mas pode ser que os objetos se refiram a processos em curso no momento da pesquisa. Esta situação traz diferentes preocupações, ou melhor, diferentes possibilidades e limites para o uso das técnicas. Por exemplo, entrevistas um protagonista de um processo político que já transcorreu é completamente distinto de entrevistas protagonistas atuais e ativos no processo estudado. Há mesmo técnicas (como a observação participante) cujo uso tende a se restringir aos processos em curso.

Como vemos, a diversidade dos caminhos é muito grande. O convite que fazemos é o de pensar tais caminhos, refletir sobre as escolhas metodológicas concretas, não para reproduzi-las, mas para aumentar nossa capacidade de fazer escolhas diferentes que sejam mais interessantes aos nossos objetos de pesquisa. Nesta versão do material, apresentamos alguns exemplos, tanto de formas concretas de organizar os processos de pesquisa que trazem para o centro a discussão sobre seus caminhos, como de materiais nos quais pesquisadores explicitam as razões de suas escolhas.

Esperamos que em breve, a multiplicação de exemplos nos permita também ampliar as reflexões sobre os caminhos da pesquisa, por ora apenas aqui esboçadas. 

Este texto integra o Livro “Caminhos para Análise das Políticas de Saúde”, que está disponível para download na página da Editora Rede Unida. Para acessá-lo, clique aqui.

Para citar o texto ou parte dele, utilize a numeração de páginas da versão impressa, tal como apresentada a seguir:

MATTOS, A.M.. Breves reflexões sobre os caminhos da pesquisa . In MATTOS, R. A.; BAPTISTA, T. W. F. Caminhos para análise das políticas de saúde, 1.ed.– Porto Alegre: Rede UNIDA, 2015. p.403-416.

A versão online disponível neste site pode apresentar pequenas e poucas diferenças em relação à versão atualizada que está no livro publicado pela Editora Rede Unida. Estamos em processo de atualização e breve as versões estarão igualadas.

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